domingo, 23 de novembro de 2014
Houve um tempo em que tudo era sonho. Mágica. Indescritível. Mas como eu disse, houve um tempo. No fim das contas, nada dura para sempre e o que parecia perfeito, na verdade, não poderia ser perfeito para sempre. Deve ser proibido viver um sonho real por muito tempo, ou coisa que o valha. A dor... Ah, a dor! Essa, sim, tem permissão vitalícia para morar dentro de nós, inundar nosso peito, nossa cabeça e nos abraçar como uma mãe. Ela está sempre aqui para nós. Quando o sonho acaba, começam as feridas, o sangue, e, lá vem ela, a dor. Ela é feroz, sufocante, porém carinhosa. Não pretende nos deixar nunca, segura nossas lágrimas, e faz por onde poder ficar para sempre. Porém, ela não trabalha sozinha. Precisa de alguém que o traia, que aponte para você e diga: "Dor, aquela é a pessoa que você deve conhecer." - Quando isso acontece, apesar da traição, você nunca mais fica sozinho. Ela extrai suas alegrias, suas memórias, suas opções, vontades, sonhos... Você vive para ela, por ela, e acaba se acostumando de forma assustadora. Essa é a hora do medo. O medo de perder a dor. Você se agarra à ela como se tudo em sua vida dependesse disso, afinal você não tem mais lembranças antes dela. A única que sempre esteve ali por você foi a dor. Não dá para abandona-la! Mas o medo... O medo é forte e influente. Persuasivo. Quando você menos espera, ele se junta à dor e os dois convivem bem dentro de você. Tão inesperado. Tudo é dor e tudo é medo. E você se pergunta: "Existia algo antes disso? Houve mesmo um tempo em que tudo era sonho?" - Mas não consegue responder, pois tem medo de saber, medo de lembrar, e dói lembrar, dói saber. A melhor opção é assumir a dor, assumir o medo e sobreviver.
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