
Abriu os olhos, lentamente. Estava claro, mas não havia sol. O ar frio invadia o quarto, sorrateiramente, pela fresta que deixara aberta na noite anterior. Estremeceu. Um dia nublado. Ainda sentia a preguiça em seus olhos, mas nada de sono. Girou o relógio do criado-mudo para si. Sete e meia. Esticou-se, fazendo a gata levantar, olhar feio, saltar da cama e sair do quarto. Pensou nele. A pergunta. A resposta. O silêncio. Talvez ele já tivesse respondido. Sentiu-se inquieta, mas não quis sair da cama. Precisava se acalmar. Lutar contra a ansiedade. Lembrou-se do dia anterior. As mãos, os braços, o perfume, o carinho, os olhares, o sorriso... Levantou-se quarenta minutos depois. As pessoas assistiam a TV na sala. Preparou o café da manhã. Café com leite bem quente, pão, margarina e geléia de jabuticaba com amora. Comeu, mas decidiu terminar de tomar a bebida enquanto lia a resposta. Sim, com certeza ele já teria respondido. Não estava errada. Havia a resposta. Outra pergunta. Ansiedade. Contenha-se. Respondeu com duas opções. Sabia que não queria a primeira, mas precisava admitir que ela existia. Lobos são fiéis ao que sentem. Respirou fundo. Nada de manipulação. Acalme-se. Seja como for, as coisas só acontecerão à noite. O tempo parece não passar. Como nunca tinha reparado nele? Ele sempre esteve ali. Onde você estava? Um sorriso amargurado. Lembrou-se, apesar de sempre evitar a lembrança. O estômago contorcido. Sabia muito bem onde estivera. Aceitara, de bom grado, voar com o tapete mágico da ilusão. Fitou o céu branco. Talvez estivesse caindo na ilusão novamente. Mas não se importava. Desta vez havia muito mais do que apenas dedos frios. Sim, desta vez havia muito mais. Mãos, braços, lábios, olhos, carinhos, abraços, sorrisos, olhares, brincadeiras... Estremeceu. Não poderia ser normal se sentir tão bem ao lado de alguém. Banho quente. Tranquilidade. Músicas. Livro. O livro dele. Observou a capa. Ali estava um livro dele, escrito pelo autor preferido dele, sobre uma história que ele gostava. Suspirou. A aproximação estava seguindo o caminho lógico, mas ainda se sentia receosa. Será que ele se sentia assim ao olhar a capa do livro dela? O que estaria pensando ou sentindo? Calafrio. Só podia estar delirando. Era tudo invenção daquela mente fértil e traidora. Não pensava nessas coisas quando estava ao lado dele, mas... Talvez... Talvez pensasse mais claramente sozinha. A intuição diz que não. Tenta não ouví-la. Os lobos são fiéis ao que sentem. O coração salta, brincalhão. Olá, coração. Quanto tempo. Está melhor? Sim, percebo sua palidez. Não, tudo bem. Fique ausente quanto tempo quiser. Silêncio. Não há lua no céu noturno. A conselheira recolheu-se após período de brilho intenso. Sozinha. Porque gostava tanto da adrenalina da incerteza? Isso só piorava a sua ansiedade. Já era noite, afinal de contas. Não havia resposta. Decidiu escrever. A resposta surgiu, de repente, deixando-a tensa. Outra pergunta. Ele tem o dom de deixá-la à flor da pele. Impaciência. Uma resposta direta. Respire fundo, mocinha. Voltou a escrever. Outra resposta. Nenhuma pergunta desta vez, apenas decisão. Calafrio, dor de estômago, mãos frias... Não, ele não tem certeza, mas gosta do risco. Arriscar-se. Era o que ambos sempre faziam, pelo jeito. Arrepiou-se. Sabia o que queria, sabia o que fazer, mas não sabia se gostaria de ver até onde poderia se arriscar.
.Wolf.
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